Todos os dias, toneladas de resíduos orgânicos saem das cozinhas brasileiras rumo a aterros sanitários, onde a promessa de decomposição se cumpre em um ambiente silenciosamente problemático. A ausência de oxigênio nesses locais compactados desencadeia um processo chamado decomposição anaeróbica, no qual micro-organismos que não dependem de oxigênio assumem o protagonismo. O resultado? Geração de gases de efeito estufa, especialmente o metano (CH₄), um gás com poder de aquecimento global até 25 vezes superior ao do dióxido de carbono (CO₂).
A compostagem surge como uma alternativa poderosa e simples. Ao expor os resíduos ao oxigênio, esse processo promove a atividade de micro-organismos aeróbicos, que transformam o que antes era lixo em composto estável e nutritivo para o solo, sem liberar metano no caminho. Trata-se de uma forma natural e eficiente de reduzir emissões e, ao mesmo tempo, enriquecer o solo com húmus — uma substância escura, rica em nutrientes, capaz de impulsionar o crescimento das plantas e restaurar ecossistemas urbanos degradados.
Compostar é mais do que um gesto ambiental: é uma ação estratégica diante da crise climática. Em vez de contribuir para a emissão de gases que aceleram o aquecimento global, a compostagem transforma restos de alimentos e resíduos vegetais em um adubo valioso, fortalecendo a cadeia de sustentabilidade desde a base — o solo. Ao devolver à terra aquilo que dela veio, fecha-se um ciclo virtuoso de nutrientes e se abre espaço para um modelo de vida mais consciente.
Durante a compostagem, os resíduos passam por um processo de oxidação natural, em que a presença de ar é fundamental. Isso impede a geração de metano e outros subprodutos tóxicos, como o chorume, e ainda favorece a biodiversidade microbiana. O composto final não só melhora a fertilidade do solo, mas também sua capacidade de retenção de água e de captura de carbono — um recurso essencial para cidades que desejam mitigar os efeitos das mudanças climáticas.

A compostagem pode começar de forma simples, dentro de casa, com restos de frutas, cascas de legumes, borra de café e folhas secas. Montar uma composteira doméstica é acessível, requer pouco espaço e pode se tornar um hábito transformador. Além disso, aprender a conservar melhor os alimentos e reduzir o desperdício também contribui para diminuir a quantidade de resíduos orgânicos enviados aos aterros.
Compartilhar o conhecimento também é uma forma poderosa de ação. Falar sobre os benefícios da compostagem e os impactos negativos da decomposição anaeróbica amplia o alcance dessa prática e incentiva mais pessoas a se engajarem. A mudança começa em pequena escala, mas o impacto coletivo é imenso.
Se no nível doméstico a compostagem já representa uma solução ambiental relevante, em escala urbana ela se torna um instrumento estratégico de gestão pública. É o que mostra a experiência da cidade de Campinas (SP), que há cerca de dois anos opera a Usina Verde de Compostagem — uma iniciativa da administração municipal voltada para a valorização dos resíduos orgânicos e a geração de adubo de alta qualidade.

A usina recebe diariamente cerca de 100 toneladas de resíduos, incluindo lodo da estação de tratamento da Sanasa, restos de poda e galharia urbana. Em breve, frutas e hortaliças descartadas na Ceasa também farão parte da operação. Esses resíduos passam por um processo de compostagem aeróbica, resultando em um composto rico em nutrientes, hoje utilizado no plantio de árvores, no paisagismo urbano e em experimentos agronômicos conduzidos pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC), responsável pela análise e certificação do adubo.
Com 50 mil toneladas de composto já armazenadas e o registro oficial do Ministério da Agricultura em mãos, Campinas se prepara para iniciar a comercialização do produto, oferecendo-o a produtores rurais e ampliando ainda mais os benefícios ambientais e econômicos da iniciativa. Atualmente, a operação da usina representa uma economia mensal de R$ 1 milhão para o município, ao evitar o envio de resíduos aos aterros e reduzir os custos com disposição final.
Localizada na Fazenda Santa Elisa, em uma área de 17 hectares, a Usina Verde é fruto da colaboração entre a Secretaria Municipal de Serviços Públicos, a Sanasa, a Ceasa e o IAC. É um exemplo concreto de como políticas públicas, gestão integrada e soluções baseadas na natureza podem transformar desafios ambientais em oportunidades de desenvolvimento sustentável.