
É crucial recordar que o conceito de “meio ambiente” extrapola a dimensão físico-natural, para alcançar o mundo social. As estratégias sustentáveis têm evoluído de um paradigma centrado na Ecologia, para reconhecer a interrelação da chamada natureza às dinâmicas sociais, culturais e econômicas que caracterizam as sociedades humanas. Nesse contexto, no Brasil, a Política Nacional de Educação Ambiental considera o “enfoque humanista, holístico, democrático e participativo” como um dos princípios básicos da Educação Ambiental, mas os esforços institucionais por estreitar esses laços na prática ainda parecem rarefeitos.
Arranjos organizacionais e regulatórios, sejam eles públicos ou privados, parecem ignorar as oportunidades de incorporar alguma camada de complexidade à prática ambiental, acomodando-se com abordagens sobre conservação e manejo de recursos ambientais extensivamente praticadas. Por exemplo, o tratamento da gestão de resíduos dificilmente se desloca de uma exposição trivial de cores da coleta seletiva, do conhecimento físico dos recipientes coletores, quando poderia esforçar-se por introduzir didaticamente aspectos da cadeia produtiva do lixo urbano, do consumismo desenfreado, da responsabilidade compartilhada pela geração, ou os problemas estruturais de natureza jurídica, fundiária e econômica da gestão e manejo de resíduos sólidos nas cidades. Já o trabalho sobre recursos hídricos, parece resumir-se à ótica conservacionista, abandonando um aproveitamento que, ao longo da história humana, coexistiu com a prosperidade das pessoas, ocupando lugar facilmente reconhecível na vida cotidiana.
Sendo assim, em alguns momentos, vale refletir se a própria idealização de ações ambientais não tem levado tão a sério o potencial transformativo da Educação Ambiental. Se a finalidade da atuação se resume a uma transmissão de conceitos descontextualizada de um motor político e de empoderamento comunitário, isso certamente obstruirá um retorno positivo em participação e impacto.
É evidente que uma prática consistente requer recursos didáticos e formativos desafiadores. No cotidiano aplicado, isso ainda significa um repertório capaz de apresentar conteúdos e metodologias sensíveis a amplas faixas etárias, socioeconômicas e culturais, por vezes, concentradas em uma mesma empreitada. Ao mesmo tempo, acervos de atividades ambientais para crianças são muito mais acessíveis e sistematizados em comparação aos de adultos, um público que, em comparação, apresenta engajamento e retenção significativamente mais custosos e fortemente variáveis conforme renda, valores, crenças, dentre outros (Tal; Peleg-Mizrachi, 2019). Faltam metodologias e temáticas eficazes e interessantes a adultos, capazes de promover aproximação com a seriedade e o compromisso que as temáticas merecem.
O imobilismo institucional no Brasil no sentido de inovar abordagens ambientais segue notável, ainda que confrontando gerações cada vez mais informatizadas e expostas a um volume de conteúdo sem precedentes. Para além da aposta escolar, a proposta da Educação Ambiental mobilizada por organismos públicos e privados incorporar vieses humanistas e transformativos na ecologia, tanto para o público infanto-juvenil quanto adulto, permanece sinônimo de inovação. Nesse espírito, a Ecominas procurou partilhar duas experiências de campanha ambiental no nosso newsletter, contribuindo para a criação de um acervo e para o incentivo a práticas de educação ambiental mais desafiadoras e ampliadas em favor do meio ambiente – isto é, indissociavelmente, das pessoas e da natureza.
Entendemos, hoje, a relevância de imbuir campanhas ambientais dos seguintes propósitos:
Ambas as atividades aqui detalhadas estão contextualizadas na implantação do Programa de Educação Ambiental de um mesmo empreendimento parceiro.
A primeira foi voltada ao público interno do empreendimento, isto é, funcionários e colaboradores, e a outra, ao externo, abrangendo a vizinhança existente, mais especificamente, os frequentadores de um equipamento institucional em operação pregressa às obras deste que será um empreendimento residencial em Nova Lima/MG.
A Pegada Ecológica é uma interessante e vasta alternativa temática para campanhas ambientais direcionadas ao público adulto. Isso porque o conceito traduz, essencialmente, um indicador ambiental baseado na vida cotidiana, fundamentando novos debates e reflexões a partir de suas métricas e resultados. Nesse caso, o público-alvo consistia em um segmento da equipe de obras de terraplanagem, reunida no refeitório após a pausa para o almoço.

Na dinâmica aplicada pela Ecominas, após uma breve introdução sobre necessidades humanas e consumo de recursos naturais do Planeta Terra, os participantes foram divididos em três grandes grupos. Cada um, então, recebia um pequeno planeta Terra recortado em papel vergê 180g, com diâmetro aproximado de 15cm. Em seguida, explicou-se que seriam lidas 7 situações reais, que abrangiam consumo de bens, alimentação, organização de materiais, reaproveitamento de sobras, uso de descartáveis, de energia elétrica e água, e que cada grupo deveria apontar, por consenso, qual alternativa mais se aproximava de seus hábitos atuais. Foi enfatizado que as respostas deveriam refletir rotinas, não o que eles sabiam ser o ideal para cada situação – e que não se trataria de eleger “certo” ou “errado”. Por exemplo, uma das alternativas era:
| SITUAÇÃO | LETRA A | LETRA B |
| Luz, ventilador e conforto – No vestiário ou alojamento, luz e ventilador às vezes ficam ligados com o espaço vazio, para quando alguém entrar já estar “agradável”. Nem sempre alguém volta para desligar. | Você não se envolve muito com isso: se estiver ligado, deixa assim, porque é mais confortável chegar no ambiente já iluminado e fresco, e não sente que isso seja um problema direto seu. | Você se acostumou a dar uma olhada ao sair; se vê luz ou ventilador ligado em ambiente vazio, desliga, mesmo que pareça chato ser sempre quem apaga |
A cada leitura, os grupos detinham 1min30s para chegar a um consenso entre alternativas “A” e “B”, a partir do que o facilitador da atividade anotava, em uma planilha de apoio, a preferência. Ao fim da atividade, contabilizadas as respostas, utilizava-se uma Escala de Conversão em Planetas, que apresentava correspondências numéricas entre escolha de letras “A” e distribuição de certo número de pequenos planetas Terra adicionais (ex.: 4 escolhas A equivaliam a +3 planetas).
Frisou-se que a dinâmica exagerava o peso de práticas consumistas e correlação numérica a planetas, para adequar-se ao contexto do encontro, mas que pretendia transmitir a noção de que, se os hábitos de todas as pessoas do mundo coincidissem àqueles, precisaríamos de “X” planetas Terra a mais. Essa era, então, uma representação da pegada ecológica, na qualidade de uma metodologia científica principalmente aplicada a hábitos individuais, responsável por quantificar impacto que causamos por nossos hábitos de consumo, conduzindo à reflexão tanto sobre rotina, quanto possibilidades individuais e coletivas para realidades mais sustentáveis ecológica e socialmente.
Foi destacado que a pegada ecológica pretende ser, sobretudo, uma ferramenta de reflexão sobre o impacto relativo de hábitos cotidianos e padrões de consumo sobre recursos naturais. Foi esclarecido que a proposta da atividade não consistia em impor condutas ou formular julgamento moral sobre os hábitos dos participantes, visto que nem tudo na rotina dependia de escolhas a favor ou contra o meio ambiente. A finalidade do debate foi ampliar a compreensão sobre como tomadas de decisão se articulam com efeitos ambientais mais amplos, servindo não apenas pensar em uma perspectiva de responsabilidade individual, mas aprimorar repertórios para avaliar o peso de políticas e decisões coletivas e públicas, desenvolvendo capacidade crítica sobre questões ambientais.
A atividade despertou nítida curiosidade sobre padrões de consumo, e retornou discussões produtivas, que se misturaram a conversas descontraídas sobre hábitos cotidianos que poderiam, ou não, ser aprimorados em favor de práticas mais conscientes ambientalmente. Ao mesmo tempo, foi possível tangenciar a escala de responsabilidade institucional e política de escolhas ambientais, induzindo à noção multinível de tomadas de decisão que transformam a realidade ecológico-ambiental em que estamos coletivamente inseridos, conforme nossas particularidades, inclusive no que tange à altamente variável disponibilidade de recursos naturais e mesmo de alternativas de consumo mais sustentáveis, de acordo com renda, inserção geográfica e social.
Inspirada em iniciativa do Grupo Petrobras, a Ecominas desenvolveu um jogo de tabuleiro, em tamanho A3, sobre práticas de sustentabilidade envolvendo condutas de preservação e conservação de ecossistemas locais, em casa e nos espaços coletivos, e atitudes cidadãs no bairro e na cidade, voltado a crianças a partir de três anos de idade.
O tabuleiro intitulado “Caminhos da Sustentabilidade” apresenta 33 casas, alternando entre mensagens sobre ecologia, cidadania, convivência comunitária e descobertas sobre fauna e flora locais do entorno. O material forma um kit junto a um dado e 4 pinos montáveis, cujo molde complementa o conjunto de entregáveis.
A partir do resultado do lançamento do dado, o jogador avança ou recua conforme coincida a práticas mais ou menos cuidadosas com a natureza e a comunidade, isto é, com o meio ambiente, como plantar flores que atraem polinizadores, separar o lixo reciclável ou ajudar um colega com deficiência física a encontrar um caminho acessível, acolher um colega novo na escola etc. associadas a movimentos de avançar casas como recompensa simbólica. Por outro lado, algumas casas apresentam práticas como o pisotear plantas nativas, deixar luz acesa sem necessidade ou gerar ruídos que perturbam vizinhos e fauna, indicando movimentos de recuo ou perda de rodada, reforçando consequências práticas das escolhas. A Chegada confere o título de “Líder Solidário”, com regra cooperativa adicional que incentiva puxar peões dos colegas que ficaram para trás, até que todas as pessoas alcancem o final do percurso.



As crianças participantes foram abordadas após saída de uma missa dominical, junto a seus pais ou responsáveis que, em conjunto, eram convidados a participar de uma simulação da atividade, ou poderiam escolher por o kit, cuja distribuição integrava a ação ambiental de implantação do PEA. A ação conquistou colaboração e interação atenta do público infantil e adulto, contribuindo para fortalecer o relacionamento entre o empreendimento e a comunidade do entorno, promovendo a educação ambiental como instrumento de participação social, valorização do território e incentivo à adoção de práticas voltadas à conservação ambiental e à melhoria da qualidade de vida local.
Você pode conferir mais sobre essa campanha ambiental no Instagram da Ecominas!



















